28 28UTC abril 28UTC 2008
POR MARCELO FONSECA - ATORDIRETORDRAMATURGO
Terça-feira, 15 de Abril de 2008
Um Cartola quase ritualístico
O diretor Peter Brook declarou uma vez que tudo que Bertolt Brecht fazia para evitar a ilusão, só direcionava o público mais ainda para a ilusão. A Cantora Cida Moreira é a maior cantora de Brecht do Brasil. Seria errado e limitado dizer que ela é só uma cantora Brechtiana, de um estilo cínico e distanciado. Como ao mesmo tempo falo como admirador e amigo – ela me deu a receita do pão de azeitona – corro sérios riscos de misturar o carinho que tenho por essa grande artista ao fazer uma análise do seu no Cd “Angenor”, com músicas de Cartola.
Cida Moreira é mais que uma cantora completa. É uma artista única. Navega por universos aparentemente distintos, como trilha de cinema, Chico Buarque, Modinhas Imperiais, Tom Waits, música caipira (no bom sentido) e… samba. Mas nada é transformado em Cida Moreira fazendo isso ou aquilo. Tudo se adequa a ela ao mesmo tempo em que ela se adequa a tudo, numa trajetória de coerência de alguém que respeita profundamente sua arte, uma cantora que é atriz. Por isso canta “Cacilda” de Zé Miguel Wisnik tão lindamente.
A princípio ela parecia não saber que esse repertório de Cartola combinava tão bem com ela. Ela passou pelo Cartola. Ou melhor dizendo, ele passou por ela. Aqui existe um distanciamento ritualístico, mas é quase dela mesma para poder se revelar nas melodias complexas e letras transcendentes do compositor. Achei que nunca mais conseguiria ouvir outra gravação de “Alvorada”. Nem mesmo a do Cartola. Porém ela revela novamente a música, como no caso de “O Mundo é um Moinho”, “Acontece” e “Sim”. E tem mais: recupera pérolas como “Feriado na Roça”, uma toada dos primórdios do gênio, faixas com canções menos conhecidas como “Nós dois”, uma interpretação antológica de “Autonomia”, um vento que passa no outono de 2008 com “Inverno do meu tempo”. Também trás uma canção pouquíssimo conhecida do público, que sempre que canto numa roda de samba me perguntam de quem é: “Silêncio de um Ciprestre”, parceria com Carlos Cachaça, um dos sambas mais lindos já compostos que a cantora torna emocionante.
O Cd é de uma simplicidade absurda. Digo simplicidade no sentido de requinte. O violão de Camilo Carrara é de um luxo, de uma economia, precisão, que mata. Ao lado de outro violão tão sensível quanto – de Omar Campos – as “Cordas de Aço” praticamente tiram o ouvinte do chão por instantes. É sem dúvida um dos melhores cds de 2008.
criado por ricardo.matioli
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