2 02UTC maio 02UTC 2009
FELICIDADE - MODO DE USAR!!
A felicidade nos ensina a virar as páginas do jornal na esperança de encontrar, na página seguinte, algo tão jubiloso quanto a nossa própria alma. E, ainda que não encontremos, tudo bem, também: a felicidade é quase auto-suficiente. A gente ri do recado truncado na secretária eletrônica, do e-mail importante que voltou, do trânsito que não anda e do filme que é uma chatice embora a crítica tenha dito que é ótimo. A felicidade nos permite andar pelo mundo em sapatos confortáveis. Mais do que isso, até: a felicidade cria para nós um mundo melhor que o mundo real, uma realidade quase paralela. A gente vê tudo o que se passa ao nosso redor e se sente um eleito, alguém que está sendo momentaneamente poupado de tudo aquilo que faz do mundo às vezes um lugar um pouco triste.
Porém, naqueles dias em que a felicidade por algum motivo nos abandona (talvez por nossa própria culpa, quem sabe) tudo se torna diferente. A gente lê que a montadora Chrysler pediu concordata nos Estados Unidos e chora por duas horas só em pensar nos trabalhadores que a gente nem conhece e serão demitidos; depois vê que a Organização Mundial da Saúde elevou de quatro para cinco o índice de epidemia da gripe suína e se enfia debaixo dos cobertores para chorar por outras duas horas; fica sabendo que um carro atropelou e matou quatro pessoas na Holanda e urra de dor: a flor não abre mais, a secretária eletrônica está muda, o e-mail importante foi entregue mas isso já não tem mais importância nenhuma, o trânsito está uma maravilha mas a gente não tem vontade de ir para lugar algum. O mundo ficou triste e agora é deste mundo que a gente faz parte, é neste mundo que a gente se reconhece. A ausência da felicidade nos devolve ao mundo dos outros. E este abandono da felicidade dói como se nossa pele tivesse sido ralada: a gente olha para o mundo com os olhos úmidos de uma saudade tão antiga, mas tão antiga, que a gente acredita estar carregando de uma outra existência.
E então, nesta hora, e somente nesta hora, a gente descobre que a felicidade também nos aquecia. O sol brilha forte e amarelo do lado de lá da janela. Mas em algum canto da nossa alma começou a nevar. E tudo parece tão branco. E tudo parece tão triste. E tudo parece tão frio. E a gente não vê a hora de que alguma coisa aconteça. Algo de bom. Quem sabe ser feliz de novo.

criado por ricardo.matioli
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