BRINQUEDO NOTURNO

VIVA MUITO MORRA JOVEM E SEJA UM CADÁVER ATRAENTE

24 24UTC setembro 24UTC 2009

TADZIO*TADZIO*TADZIO*TADZIO*TADZIO*TADZIO*TADZIO

Batizaram-no de Tadzio e não era negro. Não podia ser de outra cor senão loiro. As pessoas  sempre esperavam dele coisas como gestos violentos, voz desafinada,

olhos vesgos.  Espantavam-se  e   admiravam-se  com  os  ombros  largos,   a    cabeleira encaracolada dourada, o rosto desenhado e suave, os olhos azuis da cor do céu.    Tadzio não  brincava com  as   outras  meninas quando era criança, só  com  os  garotos. Tadzio ficava quase sempre sozinho. Mesmo assim,  os  garotos  gostavam  muito  dele.  Quase todo mundo foi na estação de trem quando  foi embora  para  o  exterior.  Debruçado  na janela e, sem expressão, nem triste nem alegre, olhava  fixo  para  o nada. Eu era o nada. Eu que escrevo e me apaixonei por Tadzio fiquei olhando-o a partir  sem  imaginá-lo em meio a homens engravatados e a automóveis nas grandes cidades. Penso  que  senti pena – e  penso  que  sentiu que  eu   sentia  o  mesmo  porque, num  gesto  mágico, fez   algo inesperado. Tadzio desceu  do  trem  saltando  pela  janela  e  me  deu  um doce beijo no rosto. Um beijo suave e quente. Qualquer coisa como vergonha  de  gostar. Essa  foi    a primeira e única vez que nos tocamos e nos sentimos e nos aproximamos. Foi a primeira vez que vi seus lábios de perto. Estavam úmidos  e  brilhantes. Os  lábios  dele  eram  os lábios que podíamos esperar de Tadzio. Rosados  e  desenhados, como  de  uma criança, uma menina. Eu queria e ficava olhando muito para seus lábios  porque  pensei  que   só tinha descoberto Tadzio na hora de ele ir embora. Mas o trem se foi e  ele também  junto  com  o  trem  e seus vagões e sua fumaça e barulho. Uns  tempos  depois vi  a  foto  dele  numa  revista: Tadzio era  modelo  fotográfico  no exterior. Todo  mundo  comprou  sua  imagem e   falou dele durante  semanas. Quase  sempre  víamos  fotos  dele  em  jornais, revistas e até  na  TV de  maior  audiência. Tadzio  era  famoso  demais  nesse tempo. A  cidade  de  onde   partiu adorava-o, mas ele nunca escreveu para ninguém.  Muitos  anos depois, eu o vi outra vez. Eu estava a escrever  para  um  tablóide e  teria   que  entrevis- tá-lo. Tadzio  estava  triste     e sozinho. Sua tristeza  era  linda e ele não ficou   feliz  em  me  ver. Continuava  lindo  e sedutor e tinha nos olhos uma coisa cheia de dor.  Fumava e  tragava  e  fumava. Falei  das  pessoas, da cidade, dos bares, dos  garotos, mas ele não parecia  se  lembrar. Contou-me  friamente  de  suas  conquistas,, de suas fotos, de  seus desfiles, de  seus  filmes, de  suas  viagens – tudo  com  uma  voz  rouca e lenta. Depois, sem  que  eu    soubesse       porque, tirou de dentro de sua  cueca  uma  folha  de   papel  com  umas  coisas  que  tinha  escrito. Tinha  uma parte  que  nunca, e  nem  se quisesse, consegui esquecer e que  assim  falava:

   sabe que o meu gostar por você   chegou  a  ser  puro

   amor pois eu me arrepiava vendo você me olhar pois

   se eu acordava no  meio  da  madrugada    era   pra

   imaginar  você dormindo  meu  deus  como  você me

   doía como você me  queimava  por  dentro de vez em

   sempre eu  vou  ficar   guardando  você  numa   noite

   escura e gelada bem no meio  do  nada  no deserto 

   preferência então  os  meus  cabelos  e  meus braços e

   minhas pernas e  meu corpo   não   vão ser suficientes

   para te esperar e te abraçar e te acariciar e te amar  e  a

   minha voz vai querer  dizer tanta coisa  tantas palavras

   tantos gemidos que eu vou me calar  por  muito  tempo

     pra  olhar  e  me  fixar  nos  seus  enigmáticos olhos

   verdes  e  pensar  meu  deus   mas  como  você  me  dói

                          sempre.

               Quando acabei de ler, chorei por muitos e muitos e muitos segundos e fiquei um monte de tempo olhando  para  os  lábios  dele. E  pensei  que  ele  parecia  ter   es-

crito aquilo com os seus lábios e seus olhos e seus pés de criança. Disse   para   Tadzio

que era lindo o que escrevera, mas ele me olhou, inesperadamente, com uma cara doce

e fria e disse que não adiantava nada ser lindo.Tentei fazer alguma coisa por ele,  e  na-

da. Mas eu só tinha uma vaga impressão de que sua  natureza  era  assim:  triste,  fria  e sedutora. E não pude fazer nada. E  se  pudesse, ele  também  não  deixaria. Fui embora

com a sensação de que ele queria e iria dizer muitas coisas. Treze dias depois,soubemos

por meio dos jornais e das revistas e dos noticiários do mundo inteiro que tinha  tomado

inúmeros comprimidos, cortou os lábios, furou os olhos, esmagou seus testículos  e   en-

fiou a  cabeça  no  aquário com  dezenas de  peixes  de   coloridos. Foi  muita  gente  no enterro e inventaram histórias sujas e tristes. Mas  nunca  ninguém   soube  da   verdade.

Nunca ninguém soube dos lábios e das escritas  de  Tadzio. Só  eu. Numa  dessas  noites escuras e geladas, vou encontrar-me com ele no meio desértico do nada e vou   ficar por

muitos e muitos e muitos segundos olhando-o sem dizer nada e pensando: que pena.Que pena Tadzio, você não ter  sido meu, você  não  ter  sido  nosso,  você não   ter  sido seu. De vez em quando, pelo menos.

                                                                                                                                                                                                         

criado por ricardo.matioli    14:06 — Arquivado em: Sem categoria

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