Batizaram-no de Tadzio e não era negro. Não podia ser de outra cor senão loiro. As pessoas sempre esperavam dele coisas como gestos violentos, voz desafinada,
olhos vesgos. Espantavam-se e admiravam-se com os ombros largos, a cabeleira encaracolada dourada, o rosto desenhado e suave, os olhos azuis da cor do céu. Tadzio não brincava com as outras meninas quando era criança, só com os garotos. Tadzio ficava quase sempre sozinho. Mesmo assim, os garotos gostavam muito dele. Quase todo mundo foi na estação de trem quando foi embora para o exterior. Debruçado na janela e, sem expressão, nem triste nem alegre, olhava fixo para o nada. Eu era o nada. Eu que escrevo e me apaixonei por Tadzio fiquei olhando-o a partir sem imaginá-lo em meio a homens engravatados e a automóveis nas grandes cidades. Penso que senti pena – e penso que sentiu que eu sentia o mesmo porque, num gesto mágico, fez algo inesperado. Tadzio desceu do trem saltando pela janela e me deu um doce beijo no rosto. Um beijo suave e quente. Qualquer coisa como vergonha de gostar. Essa foi a primeira e única vez que nos tocamos e nos sentimos e nos aproximamos. Foi a primeira vez que vi seus lábios de perto. Estavam úmidos e brilhantes. Os lábios dele eram os lábios que podíamos esperar de Tadzio. Rosados e desenhados, como de uma criança, uma menina. Eu queria e ficava olhando muito para seus lábios porque pensei que só tinha descoberto Tadzio na hora de ele ir embora. Mas o trem se foi e ele também junto com o trem e seus vagões e sua fumaça e barulho. Uns tempos depois vi a foto dele numa revista: Tadzio era modelo fotográfico no exterior. Todo mundo comprou sua imagem e falou dele durante semanas. Quase sempre víamos fotos dele em jornais, revistas e até na TV de maior audiência. Tadzio era famoso demais nesse tempo. A cidade de onde partiu adorava-o, mas ele nunca escreveu para ninguém. Muitos anos depois, eu o vi outra vez. Eu estava a escrever para um tablóide e teria que entrevis- tá-lo. Tadzio estava triste e sozinho. Sua tristeza era linda e ele não ficou feliz em me ver. Continuava lindo e sedutor e tinha nos olhos uma coisa cheia de dor. Fumava e tragava e fumava. Falei das pessoas, da cidade, dos bares, dos garotos, mas ele não parecia se lembrar. Contou-me friamente de suas conquistas,, de suas fotos, de seus desfiles, de seus filmes, de suas viagens – tudo com uma voz rouca e lenta. Depois, sem que eu soubesse porque, tirou de dentro de sua cueca uma folha de papel com umas coisas que tinha escrito. Tinha uma parte que nunca, e nem se quisesse, consegui esquecer e que assim falava:
sabe que o meu gostar por você chegou a ser puro
amor pois eu me arrepiava vendo você me olhar pois
se eu acordava no meio da madrugada só era pra
imaginar você dormindo meu deus como você me
doía como você me queimava por dentro de vez em
sempre eu vou ficar guardando você numa noite
escura e gelada bem no meio do nada no deserto
preferência então os meus cabelos e meus braços e
minhas pernas e meu corpo não vão ser suficientes
para te esperar e te abraçar e te acariciar e te amar e a
minha voz vai querer dizer tanta coisa tantas palavras
tantos gemidos que eu vou me calar por muito tempo
só pra olhar e me fixar nos seus enigmáticos olhos
verdes e pensar meu deus mas como você me dói
sempre.
Quando acabei de ler, chorei por muitos e muitos e muitos segundos e fiquei um monte de tempo olhando para os lábios dele. E pensei que ele parecia ter es-
crito aquilo com os seus lábios e seus olhos e seus pés de criança. Disse para Tadzio
que era lindo o que escrevera, mas ele me olhou, inesperadamente, com uma cara doce
e fria e disse que não adiantava nada ser lindo.Tentei fazer alguma coisa por ele, e na-
da. Mas eu só tinha uma vaga impressão de que sua natureza era assim: triste, fria e sedutora. E não pude fazer nada. E se pudesse, ele também não deixaria. Fui embora
com a sensação de que ele queria e iria dizer muitas coisas. Treze dias depois,soubemos
por meio dos jornais e das revistas e dos noticiários do mundo inteiro que tinha tomado
inúmeros comprimidos, cortou os lábios, furou os olhos, esmagou seus testículos e en-
fiou a cabeça no aquário com dezenas de peixes de coloridos. Foi muita gente no enterro e inventaram histórias sujas e tristes. Mas nunca ninguém soube da verdade.
Nunca ninguém soube dos lábios e das escritas de Tadzio. Só eu. Numa dessas noites escuras e geladas, vou encontrar-me com ele no meio desértico do nada e vou ficar por
muitos e muitos e muitos segundos olhando-o sem dizer nada e pensando: que pena.Que pena Tadzio, você não ter sido meu, você não ter sido nosso, você não ter sido seu. De vez em quando, pelo menos.
